Quando não sabes porquê

Há pessoas que entram na nossa vida e que nos ganham imediatamente o afecto, sem nós sabermos porquê. Comigo aconteceu uma vez e eu nunca consegui explicar muito bem como é que foi possível, sendo eu uma pessoa extremamente desconfiada, ter-me tornado próxima de alguém assim tão facilmente.

Não estou a falar de amor! Acho que amar também é ganhar rapidamente afecto pela pessoa mas o amor explica-se. Bukowsky resumiu-o, e muito bem, a uma forma de preconceito. Nós amamos aquilo que precisamos, aquilo que nos faz sentir bem, aquilo que nos é conveniente. Para mim, Bukowsky era um génio...

Mas como é que se explica o porquê de determinada pessoa nos ser magnética ainda que não romanticamente? Como se explica o porquê de partilhamos coisas que nunca partilhámos com ninguém (nem sequer com os amigos mais chegados, de anos a fio) com alguém recente, sem dar por isso, sem que tal seja um suplício, uma tortura, um desafio? Como se explica o porquê de, independentemente de estarmos a fazer algo que não nos é natural, não o podermos considerar uma saída da nossa zona de conforto porque, na verdade, nos sentimos confortáveis ao fazê-lo?

Com essas pessoas de imediato afecto sentimo-nos sempre confortáveis, seja em que situação for, mas principalmente a sós, quando ninguém está a ver. O silêncio é confortável. As conversas desenrolam-se sem nós como um novelo colina abaixo. Os sorrisos são sempre puros e verdadeiros. É fácil olhar-lhes nos olhos durante minutos a fio, sem medo.

Mais uma vez recorro a Bukowsky para tentar explicar o porquê, até porque não me lembrava mais dessa ligação instantânea nem sequer me preocupava mais com as suas razões até ter lido o seguinte:


Nunca foi romântico. Mas era um ele. E quando é assim até nós começamos a duvidar da inocência do nosso afecto. Afinal de contas, a carne é fraca... Mas com estas palavras tudo fica mais claro, porque a definição de "free soul" não lhe podia encaixar melhor. E nem é porque me sentia bem ao pé dele. Mas sim porque ele sabe ser pessoa sem amarras, com total desrespeito pelas normas, pelo senso comum, pela etiqueta verbal. É como se a sua boca estivesse directamente ligada ao coração. Fala e diz tudo com a audácia de uma criança. Não entra em jogos. As coisas são como são e ele assume-as muito facilmente como tal sem se importar com quem ganha ou perde. E isso é refrescante nos dias de hoje em que toda gente quer superar toda a gente, até nas coisas mais simples que deviam ser aproveitadas como só isso.

Foi, sem dúvida, refrescante para mim, que vejo a vida como uma competição, perceber que existem pessoas neste mundo para quem os meus tratos e a minha postura à retaguarda chegam a ser parvos de tão desnecessários. Ele, para além de ser dos poucos a perceber isso, tinha também coragem para me ignorar descaradamente de volta. Uma atitude a que eu estou pouco habituada.

Infelizmente, quis a vida que eu e ele deixássemos de partilhar mais do que o ar que todo o mundo respira. Agora que olho para trás talvez não tenha sida a vida mas eu... Independentemente disso, continuo a nutrir-lhe um carinho inabalável e a ter a certeza de que, passe a água que passar pelo moinho, eu vou ser sempre um ombro amigo. E nem é por opção!

Talvez seja porque uma "free soul" é rara e entendo ser meu dever, depois de ter tido a sorte de a encontrar, preservá-la acima de toda a mesquinhez humana. Ou talvez, simplesmente, porque é mesmo assim e nunca ninguém há-de perceber realmente porquê. Nem eu.

Catarina Vilas Boas



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