Os filhos das outras

Lembram-se daquela música que aqui há tempos estava muito em voga e que tinha como tema "os maridos das outras"? Pois é. Deviam fazer uma dessas mas para os filhos das outras. Das mães, esse ser sempre iluminado e cujo amor se estima incondicional.

A minha mãe não teve a sorte de ter uma filha como as filhas e os filhos das outras. E ainda por cima só teve uma! Nem tentou à segunda. Acho que podemos dizer que se resignou à má sorte... Eu nunca fui como as filhas e os filhos das outras. Porque os e as das outras é que são!

Começaram a falar aos 3 meses, a andar aos 4, e aprenderam a usar o bacio em 2 dias. 

Nunca tiraram macacos do nariz ou coloriram fora das linhas. Cáries nem vê-las! "Sempre lavou os dentes. Todos os dias!" Pois, por isso é que cresceram com eles amarelos como uma gema de ovo e passaram a puberdade meio fanados. E a dentadura está torta por causa da genética, que os filhos e as filhas das outras nunca mamaram na chupeta.

Quando os filhos e as filhas dos outros faziam asneiras, em pequeninos, ouviam-se sempre as mães a dizer que "em casa não faz disto, está-se só a armar".

Tiveram sempre boas notas! Eram génios na pré e permaneceram génios até à vida adulta. Se essa genialidade não se verificava na pauta era porque eram muito distraídos, não tinham sorte com os professores ou os colegas eram os culpados ("É uma turma tão problemática...").

Os filhos e as filhas das outras nunca se portaram mal, nem faltaram às aulas ou responderam torto a um professor.

Os filhos e as filhas das outras não bebem álcool nem fumam charros. Nunca beberam. Nunca fumaram. Daquela vez que as mães lhes apanharam o isqueiro, a erva e as mortalhas era porque eles, tão bons moços, estavam a guardar aquilo a um amigo.

Se tiverem tido a sorte de nascer com pila então pode-se dizer que, realmente, nasceram com o cu virado para o céu. Porque se às filhas das outras tudo é permitido, aos filhos então é uma alegria! Assim de repente vêm-me à cabeça uma mão cheia de exemplos. Cresceram tolhidos. E a vida de crescidos tem-lhes corrido tão bem (ahah!).

Os filhos e as filhas das outras são pró-activos, sempre presentes. Os melhores do mundo, mesmo que já tenham erguido a mão para enfardar a mãe mais do que uma vez. Ou batido com o carro contra um esteio que está ali, no caminho para casa, há mais de 20 anos.

Os filhos e as filhas das outras são sempre os mais maduros. Cresceram muito depressa! Agora que arranjaram emprego (part-time, o primeiro da vida) matam-se a trabalhar, coitadinhos. Até tão tarde!! São uns e umas mártires (apesar de terem as mesmas horas de trabalho diário que os outros e ainda por cima serem de direita, que é como quem diz: não se deviam queixar porque "os sacrifícios são necessários" e agora vão FINALMENTE começar a descontar para isso).

As filhas das outras são virgens. Sexo? Não sabem o que é. E quando souberem não vão gostar, com certeza! Pornografia? Nunca viram. Masturbação? Pílula? Broche? Tudo coisa de galdéria que chega a casa de manhã.

Aiii os filhos e filhas das outras... Podia continuar aqui a dilacerá-los e las em genuidade por linhas e linhas. E que gozo me dava! Há tanto para dizer...

Mas termino com o apontamento que me fez escrever tudo isto. Porque o problema dos filhos e das filhas das outras são as outras - as mães.

A minha tem muitos defeitos mas é única. E não o é por saber muito bem o que tem em casa! Há muitas mães que o sabem e a minha nem sequer sabe tudo. Afinal de contas, uma gaja tem direito à sua privacidade e aos seus segredos obscuros.

Não. A minha mãe é única porque não é hipócrita como as mães dos outros e das outras. É uma mãe consciente. Tenho para mim que, como às outras, não lhe agrada quando falam mal de mim, mas quando é verdade remete-se ao silêncio. Afasta-se dessas mães prodigiosas e deixa-as destilar fel como se não tivessem veneno em casa.

Quando a minha mãe me defende é porque tem realmente razões para isso. É porque eu mereço indubitavelmente defesa. E o bom de ter crescido assim (a ouvir falar as mães dos outros e das outras e a saber como eles e elas são) é que eu não preciso de defesa.

O que elas dizem não me chateia. Pelo contrário: dá-me prazer. As palavras variadas e discursos veementes são a prova renovada da sua estupidez. Ignorância, idiotice... Chamem-lhe o que quiserem!

Eu, sentada, a sorrir por dentro enquanto as ouço do alto das suas lições de moral, só consigo pensar no mítico provérbio português: Vozes de burra não chegam aos céus.

E não chegam mesmo! Acreditem. Eu sei. Elas falam falam falam... E é deixá-las falar.

Coitadas. Não sabem melhor. 

Catarina Vilas Boas


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3 comentários :

  1. Não considero o teu post Ácido, considero-o Cáustico...

    Retrata a plena verdade da sociedade de ilusões e aparências que reina... Os outros é que são, isto e aquilo....

    Pessoas demasiado "polidas" por fora, é o que está a dar e para que isso aconteça fica a faltar o conteúdo...

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    1. Também acho! Mas há sempre quem ache que seja acidez. Ou inveja! Juízos populares... Haja alguém que me compreenda ;)

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  2. Compreendo e sei bem do que falas...

    Vivemos numa sociedade conspurcada, literalmente, onde as aparências reinam e o conteúdo falta em larga escala.

    Porque no fundo somos aquilo que vemos, aquilo que fazemos, aquilo que ouvimos, aquilo que pensamos, e é realmente verdade. Porque "dois palmos de cara" muitos o têm, mas conteúdo realmente interessante há muito poucos a consegui-lo...

    Mas isto é só a minha "irritação" perante tamanha falta de conteúdo que tenho vindo a sentir em alguns que me rodeiam....

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