Sinais do tempo

Tinha sido um hotel oponente outrora.

Com tapeçarias vermelhas bordadas a fio azul, sofás grandes de pele castanha a cheirar a novo, grandes espelhos de talha em querubins perfeitamente polidos que não deixavam adivinhar os nodosos troncos que lhes haviam dado vida, quiçá as nodosas mãos de artesão local. 

As tapeçarias estão agora queimadas pelas beatas e pelas pegadas de anos e anos, o vermelho e o azul, em mistura, já se assemelham a burgundy, tamanha é a camada bolor que se entranhou no meio das linhas e fibras. Os sofás foram roubados por alguns gandulos, talvez para enfiar numa qualquer garagem de subúrbio onde as bandas de rock psicadélico ensaiam ao som de bongos e cerveja barata, com o fumo a marcar-lhes os oleosos cabelos. 

Os querubins, dos espelhos fuscos, já não estão polidos, parece que envelheceram como os homens, mais nodosos do que os troncos, mais nodosos do que as mãos, carcomidos pelos bichos da madeira que os encheram de pontos negros a lembrar a pele macilenta da puberdade. 

As portas eram de ferro envernizado e vidro opaco, enormes, para deixar entrar as mais altas personalidades. Em tempos deambulavam por lá paquetes de chapéu e fato roxo, com uma placa que lhes dava o nome e olhar cabisbaixo por terem de abrir portas e carregar malas desde o 1º ao 13º andar. a troco de uma miséria e os restos das refeições dos hóspedes. Não do prato, mas da panela que era o caldeirão de meia dúzia de cozinheiras bruxas que lá concebiam as mais intensas poções (g)astronómicas. 

As moças de serviço, com saia dois dedos abaixo do joelho, camisa branca perfeitamente engomada abotoada até ao pescoço e casaco fato a condizer com os paquetes, ofereciam champanhe e um sorriso meloso a todos os hóspedes que circulavam ali pelo lóbi.

As portas enferrujadas de vidros partidos agora só têm tamanho. Não impedem ninguém de entrar, desde que o intencionado enfie o braço no terceiro grande quadrado a contar de baixo, o primeiro da direita, e puxe o grosso ferrolho, em tempos seguro como um cofre. As roupas dos paquetes e das moças estão num qualquer armário, vestidas de traças. As bruxas cozinheiras foram mais espertas e levaram com elas os caldeirões, os chapéus e algumas vassouras que, com certeza, já não existem ou servem apenas de decoração na casa dos descendentes

A adesão àquele hotel foi, outrora, tanta que as marcações tinham de ser feitas com quase um ano de diferença. Era o ponto de encontro de maiorais de todo o mundo (e respetivas mulheres troféus). A raíz central de uma planta de mil flores diferentes: praia, lojas, jardins exóticos, spa de tratamentos milagrosos, campo de golfe, uma arcada de jogos para os mais novos.

Agora ninguém quer ficar. Não há hóspedes, nem reuniões de maiorais, nem mulheres troféus. Há praia mas está inundada por dejetos do mar. Há lojas mas estão todas fechadas, em "liquidação total" para toda a eternidade, habitadas por ratos que se passeiam pelas montras numa valsa desmedida com manequins sem braços deitados pelo chão. 

Os jardins são selvas de ervas daninhas e raízes podres, árvores cheia de doença e cadáveres de flores que nunca mais voltaram a abrir-se para o mundo. O spa sobrevive, mas mantem-se com algumas massagens mal feitas e pedicures aos homens locais, que querem um bocado de chamego ao fim de semana. 

São também eles que se arrastam pelo campo de golfe, agora com um cheiro pestilento a assombrar cada prado, fruto de todos os cães e gatos vadios que se esgueiram por lá e fazem daquilo motel, abrigo e casa de banho. A arcada não passa de um edifício descarnado, só lhe restam praticamente os pilares, grafitados com cruzes e estrelas ao contrário, tentativa de um qualquer pseudo-satânico que viu aquilo num show de tv.

Tinha sido um hotel no centro do mundo e agora não é nada. Perdeu toda a importância, toda a beleza todo o atrativo. Perdeu-o por abandono, por não conseguir agradar aos hóspedes que começaram a preferir outros hotéis. O que é um hotel sem hóspedes?

Os anos de solidão começaram a escurecê-lo por dentro, como os lençóis que escondiam os móveis e iam ficando mais e mais cinzentos a cada dia que passava. Começou por dentro mas, gradualmente, o negrume atingiu o exterior. As heras começaram a percorrer-lhe as paredes, as silvas consumiram-lhe os caminhos, Já ninguém queria lá estar. Já ninguém acha o hotel oponente. É, simplesmente, um hotel triste. De dar pena. 

Sinais do tempo.

Catarina Vilas Boas






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