Três casas

Eram três casas pegadas. Uma pintada de azul céu, como nova, outra de amarelo, um bocado descascada, e a última cinzenta e encardida, já sem tinta, de vidros partidos e heras teimosas a trepar por ela acima. Tinham todas a mesma idade, mas tinham sido tratadas de forma diferente, assim como as pessoas que nelas viviam.

Na azul morava um casal de empresários, ela snob que dói e ele um pau mandado. Tinham uma padaria que fornecia os casamentos mais chiques da cidade e batizados com cupcakes a fazer o nome da criança, bolos red velvet e floresta negra. Ele queria ter filhos, porque a árvore já tinha plantado e o livro dava demasiado trabalho a escrever. Ela também porque, apesar de toda a ambição com que se maquilhava de manhã, a realidade é que ter muitos rebentos era um sonho de miúda.

Na segunda morava uma família de 4. Duas mães e dois putos, frutos do amor que as uniu e da co adoção monoparental que se instituíra a custo há pouco. Os miúdos não choravam, pelo menos não alto, e assim não incomodavam nem os da casa azul nem a velha que morava na cinzenta.

A velha que morava na cinzenta passava os dias à janela quando chovia, ou à porta quando fazia sol. A ver quem passava na rua e a mal dizer em pensamento dos putos que moravam na casa amarela. Com as rugas que lhe marcavam a face e lhe toldavam a velhice, sem medo, despojos de uma guerra mal travada.

Eram três casas pegadas, todas tão iguais e todas täo diferentes, graças às pessoas que nelas habitavam.

Cada uma com a sua história, cada uma com a sua cor.

Catarina Vilas Boas


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