You are Lisa Simpson

Fico extremamente chateada quando a inspiração me chega à noite. Quando estou deitada, a tentar abater a insónia, à medida que o sono me submerge, também as ideias, e eu sem nada onde as apontar, sussurro a mim própria "amanhã escreves". O amanhã nunca mais chega. Ou chega. Mas pelo meio metem-se horas de sono mal dormido, sonhos e pesadelos bizarros dignos da pseudo sociopata que sou. E quando o amanhã finalmente chega, as frases meticulosamente arquitectadas naqueles segundos noctívagos de iluminação, aquelas que eu achei tão boas, escapam de mim sem nunca terem chegado a ser minhas. Não as disse. Não as escrevi. Nunca as possuí.

E depois chego aqui. E quero escrever e não consigo. Não me lembro do que me lembrei ontem. Mas era bom! Ou então não e eu já fico contente por ter sido alguma coisa apenas, porque ando numa secura de artifícios hieroglíficos e isso já se nota aqui e em mim, sempre que me deparo com a tela branca que é suposto eu salpicar.

E eu olho para o cursor a piscar, perfeitamente ritmado, já lhe conheço tão bem a cantiga! E não o consigo fazer dançar, saltar, correr linha após linha até chegar ao fim com um percurso de significado e vitorioso. Não consigo. E ele pisca em desatino, farto de estar sempre no mesmo sítio à minha espera. Entediado. Escrevo penosamente uma, duas, três frases, a ver se o contento. Apago-as. Não fazem sentido. O que é que eu estou a fazer? Vou-me embora. O browser diz-me que existem alterações não guardadas que serão perdidas. Pergunta-me se tenho a certeza de que pretendo sair desta página. 

E eu permaneço. Porque acabei de ter uma ideia.


I am
Catarina Vilas Boas


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