Sem miséria não vale a pena

Quando a vida corre bem, qualquer ode ou epopeia vira sumo de fruta sem polpa, água deslavada sem valor nutricional. Doce. Algo que se consome, não porque faz bem, mas porque não há nada melhor para consumir. Só vale a pena escrever quando a vida corre mal.

Quando a vida corre mal a escrita é álcool, é sal, limão e tequila, é vodka, é ácida e frenética, noites regadas a excessos e cabeças a andar à roda na manhã seguinte. Grita dor, mágoa, rancor e raiva e todos os sentimentos que corroem a alma. É algo que se consome apenas e precisamente porque faz mal. E sabe bem.

Os grandes escritores foram todos mentes conturbadas. Irrequietos, incompreendidos, entalados na sua própria pele, possuídos, viciados nos prazeres da vida e na culpa que acarretam. Os grandes escritores tiveram uma vida de merda a maior parte do tempo e assim, subnutridos pelas adversidades, nasceram génios de expressão literária. Porque o negativo há-de ser sempre mais forte que o positivo, o ódio mais forte do que o amor, a falta mais forte do que a presença. 

Quando a vida corre bem, quando se tem tudo, perde-se a vontade de correr atrás do leitor. Para quê? Dar sentido às letras? A ironia, a sagacidade das frases compridas ou de uma palavra apenas antes do ponto final, tudo junto não passa de um esforço desnecessário.

E digo esforço porque a felicidade apaga a inspiração, sufoca-a na ânsia de se ver, afunda-a nos confins da cama e da escuridão, outrora melhores amigas, agora tidas como ingratas.

E digo desnecessário porque, quando se é feliz, deseja-se somente esparramar a felicidade na cara dos outros, espremê-la sem dó nem piedade, para todos lerem e invejarem, para que percebam, sem grandes ilusionismos, de uma vez por todas, o que está exposto. E o que é a escrita sem ilusão? Sem a magia da duplicidade? Sem o enigma é nada. Perde a graça e o condão. Estagna oca, bocejo atrás de bocejo, eventualmente arrumada num canto onde jamais voltará a ser procurada.

Não! Sem miséria não há paixão ou ardor, não há fogo nem labareda, não há chama que faz comichão na ponta dos dedos e que queima no frenesim de a extinguir. Sem miséria não há inspiração. E sem inspiração não há nada. Que valha a pena ler.



(Um porco há-de ser porco, já dizia Bocage.)
Catarina Vilas Boas


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