João Ratão sobrevive

Nunca gostei muito da história da Carochinha. Acho que desde pequenina que não me entrava na cabeça que alguém gastasse a única moedinha de ouro com que a sorte a bafejou, NA VIDA, em bijuteria e depois fosse passar a tarde inteira, à janela, a perguntar quem queria casar com ela. (Hoje consigo ver a ironia de lhe terem aparecido, como pretendentes, um burro, um cão, um porco, um boi, um gato e um rato. Qual a mulher que não os teve?)

E ela lá escolhia o rato. Porque ele só comia do bom e do melhor, presunto, queijo e carne assada, de tudo o que havia na despensa dos ricos. Ora, se um dia não apetecesse à Carochinha cozinhar e ela quisesse mandar vir uma pizza, um estômago habituado àquelas coisas não ia comer e calar. Já para não falar que a vida está cara e se ela ficou toda contente com os cinco mérreis que encontrou a varrer a casa, não me parece que tivesse posses para manter o gosto requintado do roedor. Fosse eu e tinha ficado com o gato que, convenhamos, ao menos é gato e, qualquer coisa, só tinha que abrir uma latinha de atum, das mais baratas, para ele ficar todo contente e ronronar aos seus pés de gratidão.

Apesar dos mais variados estereótipos machistas presentes neste conto infantil, a história era tolerável porque, no final, o rato caía numa panela de toucinho a ferver e morria.

Mas isso era dantes!! Numa versão mais recente que eu tive nas mãos, o malfadado rato, em vez de tombar no caldeirão, mama o toucinho, demora o tempo que precisa para fazer a digestão e uma sesta (tudo isto enquanto a Carochinha está à espera, feita múmia, no altar) e só depois se dirige à igreja, onde dá o nó e vive feliz para sempre.

O João Ratão sobrevive.


Catarina Vilas Boas


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