Srª D. Matilde

Sr.ª D. Matilde não tinha vivido a vida.

Em nova entrançava cebolas, distribuía pão e assava sardinhas para os irmãos. A infância foi passada, quando não trabalhava, de monte em monte à espreita de flores silvestres e dos casais que as amassavam em desalinho. Essa veia de voyeur rendera-lhe uma cicatriz no lábio superior, os dois dentes da frente lascados e uma juventude de parcos pretendentes. Chegada aos 18, casou na promessa de abalar para a cidade grande onde viviam as mulheres das revistas, com rouge nas bochechas e de cigarro nos lábios. Do marido há tão pouco a lembrar que mais vale nem lhe escrever o nome. Não era muito bonito. Mas ela também não. E apesar de não ter grande conversa, ninguém o batia à sueca ou na criação do unguento para as queimaduras, receita da tetravó Assunção, garantia de rendimento aceitável. 

A ideia era ter filhos. Não que ela gostasse muito de crianças, mas decidiu conceber um. Só um. Para dar continuidade ao nome e ao segredo do unguento que, apesar de ter sido fruto de cabeça de mulher, vá-se lá saber porquê, só era passado de macho em macho. Azar dos azares, não bastava ter levado com uma pedra na cara quando tinha 12 anos, Sr.ª D. Matilde afinal não podia ter filhos. Umas gotinhas de ratonex na sopa, foi o que bastou. Não para que ela gerasse uma criança mas para que o pai deixasse de existir. E assim, com a morte do marido que nem o nome vale a pena mencionar, morreu também a pomada caseira e milagrosa que, envolta em couve, cicatrizou as mazelas de muito boa gente.


Agora vive da reforma, bebe ginjinha às sextas-feiras e fuma cigarrilhas de mentol. Passa os dias à janela e vê, nas ruas empedradas do buraco onde mora, fantasias de uma juventude que poderia ter tido, de pernas à mostra e mãos atrevidas. Não vai à missa aos domingos, não sabe o credo e já esqueceu o significado das continhas do terço que a prima lhe trouxe de Fátima e que mantém pendurado à cabeceira da cama, só porque brilha no escuro. Nunca lhe deu para a religião, embora seja crismada – espiritualmente matura e com força para viver e testemunhar a fé. Qual fé? 

Não usa preto e apesar de nunca ter encontrado um tom de rouge que condizesse com a sua feição esquálida, pinta os lábios de vermelho, por princípio. Sr.ª D. Matilde não encontra alento no tricot, nem no ponto de cruz, nem nas tertúlias de bolinhos e chazinhos que as vizinhas organizam enquanto ela bebe ginjinha, às sextas-feiras. Uma vez foi lá, mas desertou passada meia hora, sem estômago para digerir a doçura raquítica daquelas mulheres amantizadas.

Quer mais. 

Se ao menos ela não se tivesse importado, como não se importa agora, que a achassem má pessoa, vadia, tolinha… Sozinha. Com o seu passado negro e o seu presente insosso. Na eterna e triste certeza de uma vida que não foi mas que poderia ter sido. Vivida.

Catarina Vilas Boas




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